Não Deixem Morrer a Linha do Douro


É um passeio a não perder. De comboio, pela linha do Douro, até ao Pocinho. Uma viagem de encanto. Quase sempre junto ao Douro, proporciona-nos momentos inesquecíveis. Mas tem-se falado em acabar com esta linha e deixá-la somente até à Régua. O que seria verdadeiramente de lamentar. Portugal ficará mais pobre se perder esta "linha mágica".

In: Noticias Magazine - Texto:Eugénio Pinto; Fotografias: Gaspar de Jesus
 

Entrada em S.Bento, rumo ao fim da linha do Douro, no Pocinho. Sem atrasos, o que nem sempre acontece, lá vai no ruído de ferro, de tábuas, da máquina que leva as carruagens linha fora. Concluído há pouco tempo o troço Ermesinde-Valongo em dupla linha férrea, estranha-se os vidros partidos nos apeadeiros, o descuido a que esses locais estão votados. Por vezes, como a lembrar outros momentos, as pontes deixam ver rios de água que parece suja. De Valongo a Cête, as obras de duplicação e remodelação da linha tornam a viagem mais vagarosa. O comboio pára em quase todas as estações até Penafiel, onde um guincho - "Quem quer regueifa" - começa a despertar curiosidade. As carruagens estão quase cheias. Mas parecem vir a perder gente desde o começo da viagem. Em Caíde, já levam poucas pessoas. Um túnel negro, e novamente a paisagem verde, casas dispersas. Aldeias, apeadeiros e estações. Segue o comboio sempre rápido para recuperar o pequeno atraso.


Passa serviço de mini-bar, um carrinho tosco, parece de inox, puxado por um homem vestido a preto e branco. Com bebidas diversas, um termo com café e algumas sanduíches, bolos e lambarices, segue a sua chiadeira monótona. Não se pode dizer que as carruagens sejam confortáveis. As de segunda classe, bancos de napa, são estreitas e, quando cheias, é impossível esticar as pernas, não vá o vizinho da frente não gostar da ideia. Em primeira classe, não fosse sempre o ruído metálico, o conforto é bem melhor. Devia ser o mínimo exigido. Vila Meã. Cruza novamente com outro comboio. Vem o revisor, vestido como mandam as regras, de azul, com uma lapela da CP no casaco. Pede-nos os bilhetes. Parte dos passageiros dormem, esticados nos bancos, ocupando o que seriam três lugares; outros falam, lêem jornais. As mulheres fazem renda. Somos dos poucos a olhar a paisagem que ainda é monótona, o tempo que é de chuva, que segue nos tons verdes pintalgados de casas descaracterizadas. Os vidros estão sujos e é proibido deitar objectos pela janela fora. Já que não há locais onde colocar lixo, não é cumprido. Mais um plástico que voa e cai, molhado, na linha.

Pára na Livração. Desta estação partem automotoras para Amarante. O troço Amarante-Arco de Baúlhe já faleceu há muitos anos. No Marco de Canaveses volta a ficar um pouco mais vazio. "Está nevoeirada", desabafa um passageiro para a mulher. E vento frio. Mosteirô. Alargam-se os planos de água do Douro. E a monotonia dá lugar a um certo encantamento. Agora os olhos, apesar da chuva, ficam no rio calmo e verde como as montanhas arredondadas que crescem nas suas margens. Parece poder tocar-se na água."Olha o rebuçadinho da Régua a cem", canta uma mulher, cabelo branco, enquanto caminha na carruagem: "Acabei de os fazer às quatro da manhã. Estão fresquinhos. Comprem um saquinho". São doces, feitos de açúcar queimado, mel, limão e o saber da experiência.
 

Para além do olhar, a viagem começa a ter sabor. Por árvores variadas, pequenos campos, vinhas, e o Douro como estrada que não suporta passos, chegamos à Régua. Fica o comboio mais só. Nesta manhã há pouca gente a entrar na Régua, muita a sair. Desta estação partem automotoras novas para Vila Real, a linha do Corgo. De Vila Real até Chaves já o percurso, também, faleceu há muitos anos e apodrece na ferrugem dos trilhos. Até Pinhão, o comboio segue da margem direita do Douro, junto ao rio, no vale coberto a verde, as vinhas em socalcos, ou nas novas que seguem as curvas das montanhas. Do outro lado, a estrada. Parece o comboio mais rápido que os carros. Passa mesmo junto à água que a barragem da Régua aproxima da linha. Quintas, tudo verde, giestas. E o rio amplo, admirável espaço, muito antigo e sempre encantador. Pára em Covelinhas. Um apito, um sonoro ruído da máquina laranja que puxa as carruagens e lá vai Douro acima.


Parece mais lento, com vontade de apreciar sempre esta paisagem em transformação que já não tem chuva, só nuvens que começam a dispersar. Ferrão. Está abandonada a estação. É pena olhar este abandono a que é deitado o património público a cargo da CP. Faz lembrar um futuro pouco risonho para esta linha. Um futuro de "cortes" de linhas férreas que ninguém quer.

É cedo. Pouco passa das dez e meia da manhã. Um casal abre os sacos. Cheira bem. Uns petiscos são sempre bem-vindos. De barriga farta é mais fácil ver a paisagem do Douro. E lá vai o garrafão ao lado. Pinhão. Não há tempo para ver os painéis de azulejos da estação. A partir daqui, só o comboio segue junto ao rio, acompanha-o sempre. Fica pouca gente na carruagem e é fácil conversar enquanto passa a paisagem no verde do sol que começa a chegar à Terra.Este casal sai na estação do Tua onde jazem e apodrecem muitas carruagens. O fim da viagem é Bragança. Tua. Saem. Aqui apanham o comboio para Mirandela. De Mirandela a Bragança também a linha morreu. Dizem que assim não está bem, que agora as carreiras são caras, pois é um privado que faz o percurso de Mirandela a Bragança, serviço que era assegurado pela CP: "Este país não é igual para todos".Seguimos o Douro das quintas, sossegado. Depois do Tua, muda a paisagem. O vale arredondado dá lugar a fragas rochosas e só o comboio permanece junto à água. Aqui só passa a linha, nada mais. Vai vazio o comboio. Na verdade, o horário não serve ninguém. O vale fica mais estreito e o verda dá lugar ao cinzento da rocha. A partir daqui pára nos apeadeiros e nas estações, pára em tudo. Apeadeiro de Alegria. Ninguém saiu. Espreita o homem da máquina, ecoa o apito no vale e... Douro acima. Mais uma barragem a acalmá-lo. Um túnel, e já temos a água perto de nós.
 

Chega o sol ao vale. O comboio parece adormecer na beleza da paisagem. Anda mais lento. Passamos o Douro para a margem esquerda. Ferradosa. Vargelas. E segue a linha o Douro imenso por entre quintas com nomes que nos habituámos a ver nas garrafas do famoso vinho. Vesúvio. Muda a paisagem entre o granito e o arredondado das quintas. Parecem findar as fragas rochosas e o vale fica mais macio. Tudo volta a ser ameno. Segue o comboio as curvas do rio, da montanha, desta paisagem que encanta e agrada ao olhar. Aquece o tempo. Tudo é calmo, sossegado. As casas, distantes umas das outras, parecem nascidas também da terra, como as vinhas, como tudo que é possível olhar das janelas abertas do comboio. Pouca gente na carruagem. Nem meia dúzia. Freixo de Numão-Mós do Douro. Não se vê alma viva. O tempo está a chegar ao fim. Separa-se o trilho do rio. Contorna uma montanha. Mais um túnel. Negro. E um vale de oliveiras, o Douro lá no fundo, a Barragem do Pocinho. Pára. Estação do Pocinho. Aqui termina a viagem. Continuava até Barca d'Alva e seguia daqui também pelo Sabor. Mas eram outros tempos...


Anedota

Ainda não é meio-dia. Comemos qualquer coisa e regressamos no comboio das três da tarde menos qualquer coisa. Cerca de três horas de descanso. Passa um funcionário da CP: "Boa tarde. É este - e aponto o comboio que tinha chegado - que parte pelas três da tarde?". Isso era dantes amigo. É esse que parte, mas só depois das sete. O das três foi suprimido". "Como? No horário não diz nada". "Ora mostre-mo. Está a ver aquele 4? Tem de ler a nota". Olhei atentamente. Sim, estava ali um quatro "invisível" e a nota "miudinha" que se efectua somente aos sábados e domingos. Mas mal se vê. Agradeci enquanto. em silêncio, rogava pragas à CP. De táxi viemos para o Tua (partia desta estação um mais cedo). Perto de 70 quilómetros de carro por curvas e curvas. De comboio não são mais de 32. Importante: atenção aos horários e as rodapés "invisíveis" da morte das linhas não lucrativas, as do século de XIX. Não é verdade que caminhamos para o século XXI?!

O que fazer e onde comer?

Não há muito para fazer no Pocinho. Pode-se ver a barragem, a ponte, uma fábrica, lojas das quais se destaca uma "doutro tempo" que vende tecidos, e dar uma volta nas ruas daquele espaço. Come-se bem no café e restaurante Miradouro, do outro lado da Estrada Nacional 102 (telefone 279/762702). Têm todos os dias o chamado prato-do-dia, para além de uma lista variada em carnes. Para entrada, há sempre peixes com molho de escabeche. Para sobremesa, recomenda-se o pudim de ovos. E, para além da alimentação, as pessoas são muito simpáticas. Há mais dois locais: o Café Novo e o café e restaurante Ponto de Encontro.
 

Publicidade

Horários da Linha do Douro e VE (pdf)