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Vândalos, sem fisga, são eles... |
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Fotografia:
António Carvalhal
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Não juro que, por uma vez, eu próprio tenha atirado a primeira
pedra à primeira vidraça, mas também não dou certezas de
que, um dia, o não tenha feito. Dar o tiro de partida à
degradação de um edifício abandonado é coisa simples, um
desafio, uma aventura, uma actividade lúdica, um fascínio. Vejo-me pré adolescente, curioso, estouvado e aventureiro. A escola era uma sala fechada, a professora uma velhota que não nos deixava jogar o eixo e que tinha uma cana da Índia cujos nós nos faziam galos na cabeça, a tabuada o pretexto para, com a palmatória, dar-mos "bolos" uns aos outros. Na hora dos deveres o bom era, entre os medronheiros, escolher o galho com o ângulo adequado, a elegância que não ultrapassasse o limite da resistência, a firmeza que garantisse a conjugação da força com a fiabilidade da pontaria do atirador. Para arranjar os elásticos bastava um olhar silencioso e humilde à porta do sapateiro. "Já sei, queres uma fisga e não tens elásticos! Já arranjaste a galha?" Dizia o velho Manel Neca procurando, já, uma inútil câmara de ar. Depois era vê-lo, com mãos de cirurgião, a cortar as tiras de borracha da câmara, de um resto de couro mais flexível fazia a funda e, sabendo antecipadamente a resposta, a inquirir: "E fio do norte, tens?" Respondia-lhe em silêncio, temeroso que o menor monossílabo deitasse tudo a perder. "Mostra lá a galha que arranjaste. Não está mal - dizia esticando o braço e fazendo mira -, melhor seria se já estivesse seca, assim pode empenar". Com mãos de mestre cortava-lhe as pontas excessivas, fazia-lhe as camas nos pontos onde iriam ser atados os elásticos, com um vidro de garrafa partida dava-lhe uma raspadela a fim de lhe retirar asperezas que pudessem agredir as mãos delicadas do utilizador, firmemente apertava-lhe os elásticos e, por fim, com a faca cortava-lhe as pontas, de fio ou de borracha, excessivas. "Ora aí tens. Uma arma destas vale bem cinco pardais por dia. Sempre quero ver quantos me vão tocar a mim." Nem obrigado lhe dizia temendo que o agradecimento, por mal feito, pudesse levar o Necas a arrepender-se, embora os meus olhos lhe dissessem que gostava bem mais dele que da professora. Zarpava alegre que nem um sino em sábado de aleluia. Não andava, saltitava, a mão no bolso segurando o tesouro. No bolso, sim, porque aquilo não era brinquedo que pudesse exibir-se na rua. Nos jogos, às pedradas entre extremos de ruas, sempre me sentia diminuído pelas fisgadas dos outros. É certo que o interessante do jogo não era acertar no adversário, mas, mais exactamente, evitar que este nos atingisse, e o tempo de disparo manual - mais longo - já me tinha custado alguns pontos na cabeça. Proprietário de um objecto proibido não podia ensaiá-lo correndo o risco de ser visto. Ultrapasso os limites da aldeia na disposição de eleger um alvo adequado à dignidade do artefacto... Além, depois do canavial, está um edifício abandonado, na cumieira do telhado tem uma pomba feita do mesmo modo e do mesmo barro que deu as telhas. Um olhar disfarçado em redor, não fosse estar a ser observado por uma lavadeira no ribeiro ou por um agricultor a ajardinar os canteiros da horta. A procura de um seixo que juntasse a forma apropriada ao abraço da funda e a densidade proporcional à força dos elásticos. Sem descuidar a vigilância em todos os horizontes, preparar o "tiro": envolver o projéctil no couro, tensar os elásticos, afinar a mira e... zás, aí vai ela. Nada! Passou para aí a uns três metros do alvo. Vejamos um alvo mais fácil. Ali, à esquerda, no primeiro andar, há uma janela com os vidros intactos. Num deles hei-de acertar. Repetição dos gestos, e, porque a excitação era elevada, já descuidado de quaisquer vigilâncias: tensar, apontar, soltar e… pum. Num baque seco o projéctil estilhaçou o vidro e foi cair no interior do edifício. Aqueles segundos que medeiam entre o relaxar dos elásticos e o impacto com a vidraça nem o Fernando Gomes, o Bota de Ouro do Porto os saberá descrever. É que, neste caso, a expectativa, a ansiedade sobre o momento que se segue é absolutamente fascinante. Ao estilhaço pode seguir-se o silêncio vitorioso ou a reprimenda. Contrariamente ao golo, o silêncio é o verdadeiro teste da vitória, momento de glória e o êxito pleno o gozo solitário. A alternativa: "Seu vândalo, seu criminoso, seu malvado a destruir o património nacional!" Deixemo-nos de recriminar sempre o mexilhão. Nesta estória os vândalos não têm fisga. Nesta estória os vândalos estão bem longe do objecto degradado. Nesta estória a degradação exerce-se através de um despacho de um ministro, de um secretário de estado, de um presidente de câmara... Nesta estória a degradação, o vandalismo começa num gabinete alcatifado e com ar condicionado. Vândalos são todos os ministros do equipamento social que entregam ao abandono as estações de caminho de ferro e as casas do cantoneiro desactivadas, vândalos são os ministros responsáveis pelas florestas que consentem a erosão das casas florestais, vândalos são os ministros da educação que não cuidam o futuro de uma escola primária desactivada, vândalos são os autarcas que, invejosos, disputam a herança de patrimónios e depois não sabem que fazer-lhe. Vândalos, em suma, somos os cidadãos deste país - onde ainda não há lojas do cidadão onde se possa comprar civismo - que consentimos, apáticos e conformados, a destruição da nossa memória colectiva. Porto, e após uma vista à estação dos C.F de Barca d'Alva Jun.99 |
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